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11
Dez
2020
Autoconhecimento, diversidade e privilégio

Autoconhecimento, diversidade e privilégio

Já vínhamos assistindo um maior interesse das pessoas em se conhecerem e trabalharem seu desenvolvimento. Mergulhar nesse universo complexo para responder a pergunta “Quem sou eu?”. Dentro e fora, objetivo e subjetivo, razão e emoção, individual e coletivo, corporal e espiritual, luz e sombra e todas as muitas possibilidades de polaridades existentes. Ser humano integral é buscar se conhecer considerando toda a complexidade que existe em você e poder expressá-la.

Temos visto também um movimento de maior conscientização da importância da diversidade nas organizações. Esse tema tem sido mais falado, tanto nas redes sociais quanto nos fóruns internos. Começamos a ouvir com mais frequência que empresas mais diversas são mais saudáveis para as pessoas e dão mais retorno para acionistas e investidores. Estamos vendo um movimento de levar diversidade para níveis executivos e conselhos de administração. Tudo isso traz esperança de tempos melhores.

Em ambiente onde ocorre o autoconhecimento, a diversidade tem potencial de ação. Buscar se conhecer, ser quem você é, ser autêntica. Esta é uma busca evolutiva que o autoconhecimento nos traz. Essa busca passa também por ampliar a consciência de quem somos e, naturalmente, somos à medida que identificamos a nossa alteridade. Isto é, à medida que vemos a diferença, a diversidade, aquilo que é diferente de mim.

Perceber-se diferente de alguém é compreender que há diversidade. Isso não é difícil e nem é um problema. Contudo, sabemos que nem todos podem expressar sua singularidade na atual sociedade, em especial no ambiente de trabalho, onde passam um terço do seu dia. No limiar, alguns não podem nem mesmo posicionar-se como ser humano de direitos. Tem limitada a expressão de si. A expressão da individualidade pode ser vista como um privilégio para poucos. E isso, além da crise social que gera, culmina em restringir todo o potencial que a diversidade traz quando pode se manifestar.

A diversidade só existe quando indivíduos expressam sua humanidade de forma integral. Em um grupo de iguais, não há diversidade. Sem diversidade, fica restrito o debate, a criatividade, o aprendizado e o desenvolvimento. É na relação entre diferentes que a diversidade aparece, que a troca acontece, que a inovação gera transformação.

Para haver diversidade, precisamos primeiro de RESPEITO. A diferença precisa ser respeitada e também valorizada, estimulada, buscada de forma ativa. Mas também precisamos de RESPONSABILIDADE. Precisamos ser conscientes das estruturas e culturas que trouxeram nossa sociedade até aqui e, a partir disso, AGIR para promover mudanças de forma intencional.

Em 2020, vimos importantes movimentos sociais expressarem a diversidade: eleições de mulheres, negras e negros e pessoas LGBTQ+, que trazem esperança de mudanças nas políticas públicas e vários movimentos sociais no mundo indo às ruas para buscar por direito básicos. Vimos também algumas empresas levantando bandeiras e defendendo políticas organizacionais mais inclusivas. Algumas motivadas por marketing. Outras por consciência e responsabilidade. Independente disso, todas trazem a pauta e ajudam na problematização do tema, que cada vez se torna mais frequente nas organizações.

Mudar o cenário atual exige que dentro e fora das organizações, feministas, movimento negro, LGBTQIA+, estudantes, índios, pessoas com deficiência, imigrantes, entre vários outros tenham o direito de serem integralmente humanos. Além do direito, precisam de espaço seguro em que possam se expressar, sem que para isso precisem de defensores ou de estabelecer uma verdadeira “guerra” para garantir sua sobrevivência.

As organizações são atores sociais importantes para a transformação ou manutenção do status core. A área de Gestão, Gente, RH, Talentos (seja lá como vocês escolheram chamar) tem a responsabilidade de reavaliar nossas práticas e garantir que haja ambientes psicologicamente seguros para a expressão da diversidade. Pouco adianta selecionar pessoas diversas, se nas reuniões precisam pasteurizar e esconder sua voz. Se não ocupam cargos estratégicos. Se não são quem tomam as decisões chaves. Se não são chamadas para a construção do futuro da organização. Sem isso, temos mais do mesmo. Sem a possibilidades de expressão da diversidade, não haverá espaço para que estas pessoas ocupem espaços de poder e lugar de fala para efetivamente serem agentes decisores da construção do futuro da nossa sociedade.

Diversidade é um tema complexo. Exige diversidade de perspectivas sobre o próprio tema. Exige olhar para fora e também entender o que se passa por dentro de nós. As organizações são a expressão das pessoas que as compõem. Teremos organizações que transformam a partir do momento em que nos transformarmos como seres humanos e temos a possibilidade de expressar quem somos.


Sobre a autora Gislaine Gandra co-criadora do RH Experience e facilitadora de transformações e co-criações em Gestão e Cultura, implementando as novas referências de arranjos organizacionais de forma a gerar valor às pessoas, aos negócios e a sociedade.

Gislaine Gandra

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